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"Vive de tal forma que deixes pegadas luminosas no caminho percorrido, como estrelas apontando o rumo da felicidade e não deixes ninguém afastar-se de ti sem que leve um traço de bondade, ou um sinal de paz da tua vida." (Joanna de Ângelis)




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" A civilização de um povo se avalia pela forma que seus animais são tratados.(Humboldt)"

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

* SOTAQUE MINEIRO *

Quinta-feira, 8 de abril de 2010.

De:
Carlos Drumont de Andrade


O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.

Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis

efeitos colaterais,

como é

que o falar, sensual e lindo ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque!

Mineira devia nascer com tarja preta avisando:

ouvi-la faz mal à saúde.

Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para

assinar um contrato

doando

tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?

Assino achando que ela

me

faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.

Certa vez quase propus casamento a uma menina que

me ligou por engano,


pelo sotaque.

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.

Preferem,

sabe-se lá

por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem:

pode parar, dizem:

"pó

parar").

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas,

supõem, precipitada e

levianamente, que os mineiros vivem -

lingüisticamente falando - apenas

de

uais, trens e sôs.

Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é

competente em tal

ou

qual atividade.

Fala que ele é bom de serviço.

Pouco importa que seja um juiz de direito,

um jogador de futebol ou um

ator

de filme pornô.

Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de

serviço.

Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.

Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas

há de perguntar pra

outra:

"cê tá boa?"

Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma

mineira se ela tá boa é

desnecessário.


Vamos supor que você esteja tendo um caso com

uma mulher casada.

Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:

Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais

amplos significados.

Quer

dizer, por exemplo, trabalhar.

Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido.

Querem saber

o seu

ofício.


Os mineiros também não gostam do verbo conseguir.

Aqui ninguém consegue

nada. Você não dá conta.

Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo,

você liga e diz:

Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não,sô.


Esse "aqui" é outro que só tem aqui.

É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública,

de qualquer

frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar

e não estão lhe

dando muita atenção: é uma forma de dizer, "olá,

me escutem, por

favor".

É a última instância antes de jogar um pão de queijo

na cabeça do

interlocutor.


Mineiras não dizem "apaixonado por".

Dizem, sabe-se lá por que, "pêxonado com".

Soa engraçado aos ouvidos

forasteiros.

Ouve-se a toda hora: "Ah, eu pêxonei com ele...".

Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você,

um carro, um

cachorro).

Elas vivem apaixonadas "com" alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras,

todo mundo sabe. É um tal de

"bonitim", "fechadim", e por aí vai.

Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo:

"E aí, vamos?".

Não caia na besteira de esperar um "vamos"

completo de uma mineira. Não

ouvirá nunca.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela,

mas

prefiro, com

todo respeito, a mineira. Nada pessoal.

Aqui certas regras não entram. São barradas

pelas montanhas.

No supermercado, não faz muitas compras, ele compra

"um tanto de côsa".

O supermercado não estará lotado, ele terá

"um tanto de gente".

Se a fila do caixa não anda, é porque está

"agarrando" [aliás,

"garrando"] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir

um mendigo e ficar com

pena,

suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que

a essa altura o leitor já

esteja apaixonado pelas mineiras.

Não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro

"caça confusão".

Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro,

é melhor falar, para

se

fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual,

ou dizer que algo é

muitíssimo bom vai dizer: "Ô, é sem noção".

Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora,

idéia do "tanto

de

bom" que é.

Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo,

porque sem ele não dá para

dar

noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!!

Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo.

Quer dizer o quê? Sei lá, quer

dizer

"ce acha que eu faço isso"? com algumas

toneladas de ironia...

Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen,

ela dirá: "Ô dó dôcê".

Entendeu? Não? Deixa para lá.

É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."?

Completo ele fica:- Ah, nem...

O que significa? Significa, amigo leitor,

que a mineira que o

pronunciou não

fará o que você propôs de jeito nenhum.

Mas de jeito nenhum.

Você diz: "Meu amor, cê anima de comer

um tropeiro no Mineirão?".

Resposta: "Nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.

Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?".

A pergunta, mineiramente falando, seria:

"cê não anima de ir"?

Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.

É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...

Falando em "ei...".

As mineiras falam assim, usando, curiosamente,

o "ei" no lugar do "oi".

Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!",

com muitos pontos de

exclamação, a depender da saudade...

Tem tantos outros...

O plural, então, é um problema. Um lindo problema,

mas um problema.

Sou, não nego, suspeito.

Minha inclinação é para perdoar, com louvor,

os deslizes vocabulares

das

mineiras.

Aliás, deslizes nada.

Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer

que a oficial esteja

com a

razão.

Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá

comprar umas coisas..

Ques côsa? - ela retrucará.

O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade",

no lugar de "pela metade".

E se você acusar injustamente uma mineira, ela,

chorosa, confidenciará:

Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus

mistérios em Minas...

Ontem, uma senhora docemente me consolou:

"prôcupa não, bobo!".

E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas

conjugações mineiras, nem se

espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um:

"não se preocupe", ou

algo

assim.

A fórmula mineira é sintética. E diz tudo.

Até o "tchau" em Minas é personalizado.

Ninguém diz tchau pura e simplesmente.

Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês".

É útil deixar claro o destinatário do tchau.

Então...


  ...eu Carla, como boa mineira que sou,termino dizendo: 
- Bão demais da conta sô!!! 



8 comentários:

Flor de Junho disse...

Carla, amei encontrar seu blog porque acho que temos muito em comum! Você adora bichos como eu, me fez ler aquele texto de-li-ci-o-so sobre o sotaque dos mineiros, vive fora do Brasil (eu, na Itália)e faz artesanato. Parabéns por manter as raízes brasileiras tão quentinhas aí nessa terrinha linda, mas friiiia..rsrsrs...Um abração para você! Rosa

Vicentina disse...

KKKKKK muito bão mesmo sô...
Como boa mineira que tbm sou adorei...
Bjs

florzinha Tá disse...

Oi Menina.. que delica vim visitar vc.... Adoro sempre mais hj pude viajar por PARIS muito chik... conhecer seu cantinho na Suiça;;; Me fez encher os olhos e vontade de fazer as malas.... Amei tudo .. Sempre que puder mostra mais dos seus passeios...
Beijokas...

Káthia Marchand disse...

Carla minha querida!
Depois disso tudo, eu acho que ocê fez bão serviço com essas palavras aí ó...

Fez nós intendê tudim ...

Tô messs pexonada contigo ... rsrsrsrsrsrsrsrs ... eita vidão sô!

Mexê com computadô é prá lá bão...a genti pensa i fala rapidim.... rsrsrsrsrsrsrsrs...

Bejo prôcê!!!!!!

Faniquito disse...

Então, é isso !!! Tinha que ser mineira...eu adoro Minas sabia ?!? Vou há mais de 25 anos p/ uma cidadezinha pertinho de São Lourenço...chama Passa Quatro, pertinho de Itanhandu...uma região linda !!!

E p/ encerrar :

Uai é uai...uai !!! hehehe Tenho uma camiseta assim.

Beijinhos


Ana

GRAÇA disse...

A minha dona tem no blog dela um quadro feito por ela para oferecer,vão lá!
Ron..rons kika e bjs da dona
Graça

GRAÇA disse...

Carla obrigada pelas palavaras t~~ao carinhosas,não presisa comentar todas as vezes,basta fazer a visita que conta,masestá atenta que no dia do aniversário eu vou oferecer mais umas coisinhas
Beijinhos bom fim de semana e sorte|
Graça

Milai disse...

Olá Carla!
Gostei de ler e acho que fiquei a entender um pouquinho mais o modo de falar dos Mineiros.
Beijinhos